Mitos na Gestão de OPM: decisões que comprometem custo, governança e previsibilidade hospitalar

Introdução

A gestão de Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPM) representa um dos principais vetores de variabilidade financeira e assistencial dentro das instituições de saúde.

Estudos demonstram que a escolha de implantes e insumos cirúrgicos impacta diretamente os custos dos procedimentos, muitas vezes sem correlação proporcional com melhores desfechos clínicos (Lavu et al., 2023; Matson et al., 2020).

Além disso, a adoção estruturada de tecnologias em saúde, por meio de critérios técnicos e análise de valor, é determinante para alinhar eficiência econômica, segurança do paciente e sustentabilidade institucional (Shoman et al., 2023; Di Bidino et al., 2025).

Apesar desse corpo de evidência, a prática hospitalar ainda é influenciada por premissas que distorcem a tomada de decisão e reduzem a previsibilidade da operação.


Mito 1 — Padronizar OPM compromete a autonomia clínica

A percepção de que a padronização limita a prática médica ainda sustenta a variabilidade na escolha de materiais.

No entanto, a literatura evidencia que a padronização baseada em critérios técnicos reduz inconsistências, melhora a organização do processo cirúrgico e contribui para a eficiência operacional (Geppert et al., 2020).

Modelos fundamentados em Avaliação de Tecnologias em Saúde demonstram que é possível estabelecer diretrizes estruturadas sem comprometer a decisão clínica individual, desde que sustentadas por evidência (Shoman et al., 2023).

Implicação estratégica:
A ausência de padronização compromete a previsibilidade de custos, reduz o poder de negociação institucional e dificulta a consolidação de práticas seguras e replicáveis.

Direcionamento:
Estruturar protocolos por procedimento, com base em evidência clínica, análise de custo e alinhamento institucional.


Mito 2 — O modelo consignado garante controle sobre custos

O modelo consignado é frequentemente interpretado como solução para controle de OPM.

Entretanto, a literatura não associa o modelo logístico, isoladamente, à eficiência ou à redução de custos. A variabilidade permanece quando não existem critérios estruturados para seleção e utilização dos materiais (Watanabe et al., 2025; Katanbaf et al., 2025).

Implicação estratégica:
A dependência do modelo consignado pode gerar falsa segurança, mantendo a instituição exposta a oscilações de custo e baixa visibilidade financeira.

Direcionamento:
Implementar monitoramento contínuo de consumo e custo por procedimento, vinculando decisões a dados e não ao modelo de fornecimento.


Mito 3 — A gestão de OPM é responsabilidade isolada do centro cirúrgico

A condução fragmentada da gestão de OPM entre áreas assistenciais e administrativas limita a eficiência do processo.

A literatura em governança em saúde reforça que integração entre setores é essencial para garantir rastreabilidade, transparência e qualidade da informação.

Falhas logísticas e inconsistências de registro impactam diretamente o desempenho institucional e a capacidade de análise (Fan et al., 2024).

Implicação estratégica:
A ausência de integração amplia o risco de glosas, compromete a rastreabilidade e reduz a confiabilidade dos dados utilizados na tomada de decisão.

Direcionamento:
Estruturar fluxos integrados entre farmácia, centro cirúrgico, suprimentos e faturamento, assegurando consistência ao longo de todo o processo.


Mito 4 — A variabilidade é inevitável devido à complexidade clínica

Embora a complexidade assistencial influencie a tomada de decisão, estudos demonstram que uma parcela significativa da variabilidade decorre de fatores não clínicos, como ausência de critérios estruturados e decisões descentralizadas (Matson et al., 2020; Shoman et al., 2023).

Implicação estratégica:
A variabilidade não controlada gera ineficiência sistêmica, dificulta a gestão de custos e impede a evolução da operação para um modelo escalável.

Direcionamento:
Analisar a variabilidade por procedimento e correlacioná-la com evidência clínica e parâmetros institucionais definidos.


Diagnóstico estratégico

Os principais desafios na gestão de OPM não se originam na execução, mas na forma como a operação é interpretada.

Na maioria das instituições, existe controle operacional, mas não necessariamente compreensão estruturada da realidade. Sistemas, rotinas e indicadores isolados criam a percepção de domínio, enquanto ineficiências permanecem não identificadas.

Nesse contexto, a variabilidade deixa de ser um fenômeno clínico e passa a refletir fragilidades de governança.

A evidência científica demonstra que eficiência e qualidade assistencial podem coexistir, desde que a tomada de decisão seja estruturada. A padronização qualifica processos, a análise da variabilidade direciona melhorias e o uso de critérios técnicos sustenta a previsibilidade.

Ignorar esses princípios mantém a operação exposta a desperdícios recorrentes, instabilidade financeira e baixa maturidade gerencial.


Conclusão

Antes de discutir redução de custos, negociação com fornecedores ou implementação de protocolos, existe uma etapa frequentemente negligenciada: o diagnóstico.

Sem uma leitura estruturada da operação, iniciativas de melhoria tendem a ser pontuais, reativas e de baixo impacto.

A evolução da gestão ocorre quando a instituição deixa de operar por percepção e passa a tomar decisões baseadas em dados consolidados, critérios técnicos e priorização clara.

É nesse ponto que a farmácia hospitalar deixa de ser operacional e passa a atuar como um ativo estratégico dentro da governança institucional.

Se a gestão de OPM ainda depende de interpretações isoladas e não de análise estruturada, a limitação não está no processo, está na ausência de diagnóstico.


Referências

LAVU, M. S. et al. Impact of implant selection on cost and outcomes. Journal of Arthroplasty, 2023.
MATSON, A. P. et al. Cost variation in orthopaedic procedures. JAAOS, 2020.
GEPPERT, P.; DAILY, B.; CASANOVA, S. Achieving cost savings in surgical supplies through preference card standardization. Journal of Medical Systems, 2020.
SHOMAN, H.; ALMEIDA, N. et al. Criteria for decision-making in early adoption of surgical technologies. JAMA Network Open, 2023.
DI BIDINO, R. et al. Health Technology Assessment in hospital decision-making. International Journal of Technology Assessment in Health Care, 2025.
WATANABE, K. et al. Lean approaches in orthopaedic surgical systems. Journal of Orthopaedic Science, 2025.
KATANBAF, R. et al. Hospital cost drivers and procedural variability, 2025.
FAN, X. et al. Retrospective analysis of adverse factors impacting medication logistics. Alternative Therapies in Health and Medicine, 2024.

Picture of Dara Silva

Dara Silva

CRF 89605

LinkedIn

ENTENDA COMO ALAVANCAR A SUA INSTITUIÇÃO

Fale com um de nossos consultores!