Gestão de OPM em Procedimentos Cirúrgicos: entre a decisão clínica e a governança institucional

Introdução

A gestão de Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPM) tornou-se um dos principais pontos de tensão dentro da operação hospitalar. Seu impacto ultrapassa o custo unitário elevado e alcança diretamente a qualidade assistencial, a previsibilidade financeira e a capacidade de governança da instituição.

Em especialidades cirúrgicas de alta complexidade, como ortopedia, neurocirurgia e cirurgia cardiovascular, a escolha de OPM envolve múltiplas variáveis: exigência técnica, autonomia médica e crescente rigor de auditorias e operadoras.

Nesse cenário, a OPM assume três funções simultâneas:

  • elemento crítico para o desfecho clínico
  • componente relevante do custo por procedimento
  • ponto sensível de rastreabilidade e reembolso

Evidências mostram que a seleção de implantes influencia diretamente custos e prática clínica (Lavu et al., 2023). Em paralelo, instituições com processos estruturados de Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) apresentam maior controle financeiro e melhor alinhamento entre valor clínico e econômico (Di Bidino et al., 2025).

Apesar disso, a maioria dos hospitais ainda opera sem critérios consolidados para sustentar essas decisões.

Problema

A gestão de OPM, na prática, permanece descentralizada e pouco padronizada. As decisões ocorrem sem um modelo estruturado que garanta consistência, comparabilidade e controle.

Esse cenário se traduz em:

  • escolhas baseadas em preferência individual
  • ausência de critérios técnicos uniformes
  • falhas de rastreabilidade
  • desalinhamento com regras de cobertura

A complexidade é ampliada por fatores externos, como exigências de autorização prévia, heterogeneidade entre operadoras e aumento de glosas.

Como consequência, forma-se um modelo em que a decisão acontece, mas o controle não acompanha.

O impacto mais relevante desse desequilíbrio é indireto:

os efeitos financeiros da OPM raramente aparecem de forma explícita, sendo diluídos em variações de custo, perdas por glosa e retrabalho operacional.


 

Implicação

A ausência de governança estruturada compromete o desempenho institucional em três dimensões centrais.

 

Assistencial

A variabilidade na escolha de materiais reduz a padronização e aumenta o risco associado ao cuidado, especialmente em procedimentos de alta complexidade.

 

Financeira

Custos tornam-se menos previsíveis, com aumento de perdas não rastreadas, glosas recorrentes e dificuldade de controle orçamentário.

 

Estratégica

A instituição perde capacidade de negociação, limita a adoção de modelos baseados em valor e reduz sua eficiência em escala.

Estudos associam falhas na gestão de OPM a maior tempo de internação, aumento de negativas e impacto direto na sustentabilidade hospitalar (Katanbaf et al., 2025). Abordagens Lean reforçam que a ausência de padronização compromete a eficiência operacional (Watanabe et al., 2025).

Nesse contexto, o problema não está no custo isolado do material.

Está na ausência de um modelo que organize, sustente e dê transparência à decisão.

Direcionamento Estratégico

A evolução da gestão de OPM exige uma mudança de abordagem: sair do controle pontual e avançar para a governança estruturada da decisão clínica.

Instituições mais maduras operam com critérios definidos, integração entre áreas e uso sistemático de dados para sustentar escolhas.

Essa transição se apoia em cinco pilares:

1 Estruturação da decisão clínica

  • protocolos baseados em evidência
  • comitês multidisciplinares
  • critérios objetivos de indicação
  • monitoramento por indicadores

 

2 Padronização orientada por valor

  • definição de listas por procedimento
  • classificação por custo e desfecho
  • revisão contínua com base em ATS

 

3 Integração entre áreas

A consistência da gestão depende da conexão entre:

  • farmácia hospitalar
  • centro cirúrgico
  • suprimentos
  • faturamento e auditoria


Essa integração reduz divergências entre uso, registro e cobrança.


4 Rastreabilidade e documentação

  • registro detalhado por lote e implante
  • integração com prontuário eletrônico
  • padronização documental para faturamento


5 Uso de dados para tomada de decisão

  • custo por procedimento
  • taxa de glosa
  • variabilidade entre equipes
  • aderência a protocolos


O uso estruturado dessas informações permite reduzir variabilidade e aumentar previsibilidade.


Conclusão

A gestão de OPM é, fundamentalmente, uma questão de governança.

Sem estrutura, o hospital opera com variabilidade elevada, baixa previsibilidade e perdas que se acumulam fora dos indicadores tradicionais.

O ponto crítico não é a existência de ineficiências, mas a ausência de clareza sobre sua origem e impacto.

Sem esse nível de entendimento, a gestão permanece reativa e limitada.


Por outro lado, instituições que estruturam esse processo conseguem:

  • reduzir custos com consistência
  • aumentar previsibilidade financeira
  • fortalecer auditorias e negociações
  • sustentar crescimento com maior controle


A questão central deixa de ser identificar se há desvios. E passa a ser:

a instituição consegue mensurar, priorizar e sustentar decisões sobre eles?


Essa é a diferença entre operar e governar.


Referências

Lavu MS et al. Journal of Arthroplasty, 2023.
Di Bidino R et al. International Journal of Technology Assessment in Health Care, 2025.
Watanabe K et al. Journal of Orthopaedic Science, 2025.
Matson AP et al. JAAOS, 2020.
Katanbaf R et al., 2025.

 
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Dara Silva

CRF 89605

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