Sem uma leitura estruturada da operação, a gestão reage aos efeitos enquanto as causas permanecem invisíveis.
Nenhuma instituição descobre um problema de abastecimento no dia em que o medicamento acaba. Ela percebe tarde demais uma falha que começou meses antes.
Dados recentes do movimento Medicamento no Tempo Certo mostram que 83% dos pacientes atendidos pelo SUS enfrentaram dificuldades para obter medicamentos — 52% interromperam seus tratamentos por falta de acesso.
Quando olhamos para esses números, é natural direcionar a atenção para fornecedores, processos de aquisição ou desafios logísticos. Todos esses fatores são relevantes.
Mas existe uma pergunta que toda farmácia deveria fazer:
O que está sob nosso controle?
Porque, na maioria das vezes, a ruptura de estoque não acontece por falta de produto.
Ela acontece por falta de previsibilidade.
Programação baseada em histórico pouco confiável, parâmetros de reposição desatualizados, estoques de segurança incompatíveis com a realidade assistencial, curva ABC sem revisão periódica e decisões sustentadas mais pela experiência individual do que por análises estruturadas são fatores que frequentemente precedem o desabastecimento.
Em muitos diagnósticos realizados em farmácias, o problema não estava na compra. Estava na ausência de uma leitura consistente da operação.
Quando a governança clínica não está integrada à logística, o resultado costuma ser previsível: o medicamento falta justamente para quem mais precisa e no momento de maior criticidade.
O debate sobre desabastecimento no SUS é legítimo e necessário. Mas ele não pode obscurecer uma realidade igualmente importante.
Mesmo quando o abastecimento externo funciona, instituições sem planejamento estruturado continuam vulneráveis.
O problema não começa quando o medicamento falta. Ele começa quando a gestão deixa de enxergar os sinais que antecedem a ruptura.
Por isso, identificar gargalos entre programação, aquisição, armazenamento e dispensação deixou de ser uma atividade operacional. É uma prática de governança.
Porque estoque não se rompe no dia da falta. Ele se rompe no dia em que a gestão deixa de revisar seus parâmetros.
E a sua instituição?
Quando foi a última vez que os critérios de reposição dos medicamentos de maior criticidade clínica foram revisados?
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