O primeiro passo para reduzir desperdícios não é cortar custos

Antes de reduzir despesas, a gestão hospitalar precisa identificar onde estão as perdas, quanto elas representam e quais devem ser priorizadas.

 
Pressão por redução de custos faz parte da realidade hospitalar. Mas, diante de margens cada vez mais restritas, existe uma pergunta que deveria anteceder qualquer decisão: O hospital sabe exatamente onde está perdendo recursos?

Se a resposta não estiver sustentada por dados, reduzir despesas pode até melhorar um indicador no curto prazo, sem necessariamente eliminar a causa da ineficiência. Porque gastar menos e desperdiçar menos são decisões diferentes.


O desperdício que preocupa a diretoria nem sempre aparece como “perda”

Medicamentos vencidos e materiais descartados são desperdícios visíveis. Mais complexas são as perdas diluídas na operação. Compras emergenciais, estoques inadequados, baixa rotatividade, devoluções, retrabalho, falhas de integração entre áreas e baixa previsibilidade de consumo também comprometem o resultado.


Estudos recentes em farmácia hospitalar demonstram que estratégias estruturadas de redução de desperdícios partem da identificação das oportunidades e da análise dos processos antes da intervenção. Metodologias de melhoria da qualidade seguem a mesma lógica: definir, medir e analisar antes de melhorar e controlar.


A implicação para a alta gestão é direta: não se reduz de forma sustentável aquilo que ainda não foi adequadamente mensurado.


Cortar sem diagnóstico pode apenas transferir o custo

Considere uma decisão de reduzir estoques para liberar capital. Sem avaliar consumo, criticidade, sazonalidade, tempo de reposição e histórico de rupturas, uma economia aparente pode retornar como compra emergencial, indisponibilidade de medicamentos, atraso assistencial ou cancelamento de procedimentos.


O mesmo raciocínio vale para contratos, processos, tecnologias e dimensionamento de equipes.

O problema não é buscar eficiência. O problema é tomar uma decisão financeira sem conhecer suas consequências operacionais e assistenciais.


Para a diretoria, isso amplia diferentes exposições: impacto financeiro, risco assistencial, conformidade regulatória, risco jurídico e reputação institucional. Por isso, antes de perguntar “quanto podemos cortar?”, existe uma pergunta mais estratégica: “Quanto estamos perdendo hoje, e quais causas realmente explicam essa perda?”


Antes de reduzir, transforme percepção em evidência

A diretoria frequentemente sabe que existem oportunidades de eficiência. O desafio é dimensioná-las: onde estão as perdas, quanto representam financeiramente e quais devem ser priorizadas?

Sem essa linha de base, a gestão trabalha com percepção. Com dados, passa a trabalhar com prioridade.


Para uma instituição que precisa equilibrar sustentabilidade financeira, qualidade assistencial e previsibilidade, o objetivo não é simplesmente gastar menos, mas utilizar melhor os recursos e saber onde agir primeiro. Por isso, a sequência mais segura é: Diagnosticar → mensurar → priorizar → decidir.


Se a instituição reconhece que existem desperdícios na gestão de MAT/MED e OPME, mas ainda não consegue demonstrar onde estão e qual é sua dimensão, talvez o próximo passo não seja aprovar mais um corte. É transformar ineficiências em evidências para uma decisão mais segura.


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Dara Silva

CRF 89605

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